Cultura organizacional: nasce ou constrói-se?

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Cultura organizacional: nasce ou constrói-se?

A cultura organizacional é um dos pilares mais falados — e menos compreendidos — no mundo empresarial.

Em ambientes complexos e altamente dinâmicos, a pergunta não é se a cultura existe, mas antes como é que se manifesta, quem a influencia e com que grau de intencionalidade deve ser gerida.

Será que a cultura organizacional deve emergir espontaneamente ou precisa de ser construída com intenção?

O que é a cultura organizacional?

Primeiramente, há que definir o conceito. Cultura organizacional é o conjunto de valores, crenças, práticas e comportamentos que regem a forma como uma organização funciona no dia a dia.

Segundo Edgar Schein, um dos mais relevantes especialistas nesta área, a cultura organizacional é composta por pressupostos aprendidos que guiam a forma como os membros da organização lidam com problemas internos e externos.

Ou seja, a cultura organizacional existe sempre — mesmo que ninguém fale sobre ela.

A tensão entre emergência e design cultural

A literatura divide-se entre duas abordagens centrais: a visão emergente, que vê a cultura como resultado de interações informais e processos adaptativos, e a visão construtivista, que defende a possibilidade de desenhar e cultivar uma cultura desejada, em consonância com os objetivos estratégicos.

Autores como Edgar Schein insistem na dimensão simbólica e subterrânea da cultura organizacional, alicerçada em pressupostos inconscientes. Já Hofstede reforça o carácter coletivo e aprendido da cultura, destacando o papel da socialização e da normatização. Ambas as abordagens concordam, contudo, numa premissa fundamental: mesmo quando não é gerida, a cultura está sempre a ser construída.

Deixar a cultura à sua “organicidade” é, portanto, uma escolha — ainda que tácita. E como qualquer escolha, tem consequências

A ilusão da cultura 100% orgânica

Já todos teremos ouvido a frase “a nossa cultura foi sempre assim” ou “não precisamos de definir valores, porque já temos uma boa cultura”.

A crença de que a cultura deve ser “natural”, “espontânea” ou “livre de constrangimentos” parte muitas vezes de um romantismo organizacional perigoso.

Num mundo onde os sistemas se retroalimentam, a ausência de intenção não equivale a neutralidade — equivale a permissividade.

Sem uma arquitetura cultural, corremos o risco de:

  • Reforçar lógicas informais de poder: quem define o que é “aceitável” numa cultura não explícita?
  • Normalizar a exclusão e a ‘microagressão’: sobretudo em contextos multiculturais ou interrelacionais.
  • Criar um fosso entre cultura declarada e cultura vivida: o que está nos valores impressos raramente resiste sem mecanismos de coerência e accountability.

Como refere Peter Drucker, “Culture eats strategy for breakfast”. Quando a cultura organizacional não está alinhada com a estratégia, é esta última que acaba por perder.

 A importância de construir cultura

A dicotomia entre cultura e estratégia é frequentemente mal colocada. Cultura não é a antítese do “business”. É, na verdade, o suporte operativo da estratégia — aquilo que determina se a execução será fluida, fraturada ou impossível.

Como refere Jon Katzenbach, “a cultura organizacional é o maior ativo oculto de uma organização – ou o seu maior passivo silencioso”. As empresas que integram cultura nos seus modelos operacionais (em hiring, onboarding, feedback, governance, inovação) tendem a mostrar maior resiliência, adaptabilidade e performance sustentável.

Construir uma cultura organizacional trata-se assim de guiar, nutrir e dar consistência à forma como as pessoas trabalham juntas e tomam decisões.

Cultura organizacional: resultado do acaso ou da intenção?

A resposta é clara: ambas.

A cultura organizacional tem sempre uma componente orgânica — nasce das relações humanas, dos contextos, dos hábitos. Mas se queremos que ela seja uma aliada da estratégia, da inovação e da retenção de talento, então precisa também de ser construída. Precisa de intenção, consistência e visão.

Assumir que a cultura se faz sozinha é um risco, é como deixar a reputação de uma marca sem gestão. Cultivá-la de forma ativa, por outro lado, é uma oportunidade.